Vou retificar meu post. Agora terminei de ler as 503 páginas do romance "Dance, Dance, Dance", de Haruki Murakami. Sem pular trechos. Uma sensação diferente da primeira vez em que não tive paciência de ler até o fim.
É uma estória de amor. É o amor que o narrador-protagonista (inominado) está buscando o tempo todo. Enquanto não encontra, flutua sobre o vazio dos tempos pós-modernos. Em sua posição marginal (é um jornalista free-lancer), crítica a sociedade da informação e do excesso.
O protagonista está solto no mundo, sem vínculos afetivos ou profissionais. Uma tênue ligação com uma ex-namorada o leva a envolver-se com um trama de mistério e intriga que começa num hotel de Sapporo (cidade do norte do Japão, onde se fabrica a famosa cerveja) e se estende áos bairros chiques de Tóquio e até a Honolulu, no Havaí.
A paixão pela cultura pop americana - canções de sucesso dos anos 60 e 70 - embala o romance. A adolescente Yuki, que ele conhece de modo insólito personifica a juventude, com a qual ele compartilha o prazer de ouvir música . Através da adolescente o jornalista conhece sua estranha familia: a mãe fotógrafa Ame e o pai escritor, Hiraku Marumaki - um anagrama-piada com o nome do próprio autor.
O jornalista passa a viver num mundo de contos de fadas graças à exótica família e a um amigo ator famoso, Gotanda. Todos facilitam sua vida oferecendo companhia - Yuki, que é sensitiva - e dinheiro e diversão - Marumaki, um escritor de sucesso e Gotanda.
Várias vezes o protagonista se refere á sociedade do desperdício. Embora o enredo se concentre no desaparecimento da namorada, no início e no assassinato de uma prostituta, a seguir, é a sociedade do ócio que o protagonista critica.
O personagem Gotanda representa o sistema de consumo e do supérfluo. Um ator sem identidade própria, cujos desejos são reprimidos para servir a uma máquina descomunal.
"Dance, Dance, Dance" lembra "Sonhos de Bunker Hill", do americano John Fante, mas o protagonista não chega a ser tão atrapalhado como o candidato a escritor Arturo Bandini. O humor é leve - em geral anedotas envolvendo icones da cultura pop, como Michael Jackson e Jodie Foster - e saltam algumas imagens poéticas.
A linguagem acessível o gênero, supostamente um romance policial com uma estória de amor no fundo, talvez explique as traduções para vários países.
A sociedade japonesa também está lá, nos nomes dos personagens e das cidades, nas marcas de carro e na descrição minuciosa dos pratos da culinária. Mas nada lembra o que se possa chamar "cultura" em termos sociológicos - não há descrição de comportamentos típicos, como em Junichiro Tanizaki ("Voragem") ou em Yukio Mishima ou até uma colega mais contemporânea, Banana Yoshimoto ("Kitchen").
Na semana passada um programa da MTV fez um gozação com titulos de livros clássicos, desafiando os telespectadores a criar uma descrição sumária para o Twitter. Quando falaram em "Livros de Paulo Coelho", logo responderam: perda de tempo.
"Dance, Dance, Dance" não chega a sofrer este juízo cruel. Mas há escritores japoneses apaixonados pelo ocidente que foram mais felizes ao incorporar a cultura americana na de seu país.
Curiosamente, a impressão que se tem ao ler o romance, é que o protagonista muitas vezes se refere à própria narrativa, num processo de metalinguagem. Entretanto tomou cuidado para não cair na linguagem intelectual que afastaria o grande público.
Não há reflexões nem dramas catárticos no fim da leitura. Apenas o desenlace do mistério: a função do homem-carneiro e da aventura fantástica na qual se meteu o jornalista. "Dance" sinaliza o que pode ser a literatura acima da média no pós-modernismo.