Um menino, colega do curso de Japonês me contou a história de sua vida. Ele tem 15 anos. Mostrou um mangá que desenhou e fiz alguns comentários, curiosa. Daí ele disparou a falar.
Lembrei que fui estudante ótima até a adolescência e depois abandonei os estudos e nunca mais fui a mesma. Acho que entre a arte e marginalidade existe um grau de separação. Penso se a experiência desviante é útil como exemplo antipedagógico. Continuo "não aprendendo" nada. Algumas vezes tenho medo de ter entrado para o "sistema de sedução". Sempre dizem os bons pedagogos: educere x seducere. Em Latim: conduzir para o mundo x afastar-se dos votos (de lealdade).
Hoje não acho que há oposição entre os dois termos. Pode-se educar seduzindo, sem que sedução implique adulação ou submissão. Este seducere é compartilhar experiências únicas, como fazem os artistas. A resposta de porque todos os grandes artistas são inimitáveis é que cada um criou um estilo com as limitações que encontrou na vida.
Mas meu tema é a secura da alma. Esta quase cética, que nada mais aspira. Não aspira ser Buda, não aspira o equilíbrio mental e espiritual. Não aspira ser escritora, não aspira ser artista. Aspira só o pó que vem da rua, entrando pela janela aberta do apartamento. Aspira a realidade concreta, não o mundo dos sonhos.
A alma seca encobre a alma molhada. A alma antiga onde chovia tanto que foi preciso secar.
Agora continuo vivendo, não como alma penada. Mas como alguém que fortaleceu o espírito para a luta da vida. É preciso chegar ao fim, não sei bem pra quê. Não sei o propósito. Só sei que depois que se aprende não é difícil, basta continuar.
Há algumas noites em que se perde o sono e se desperta. Pra quê? Pra quê ? Alguém reclama que a sexualidade insatisfeita é o pior dos infernos. Penso que aprender a ser sozinho é o primeiro passo para sair do inferno. A alma ficou seca, me tornei insensível. Ou invisível, sem querer. Sem querer passei para o outro lado e ainda não me dei conta. Preciso acordar ? Preciso dormir ? Ou preciso não pensar mais ?
1 comentários:
Estou impressionada, Marilia. Também tive insônia essa noite. Acordei hoje feito um zumbi. E questinava exatamente sobre tudo isso que descreveu. Incrível. Fiz até alguns poemas sobre este sentimento:
Mãe, devolve-me as lágrimas
desfaz o desencanto
que me fez
de pedra
quero de volta
inteira — minha humanidade
bjs.
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