Sexta-feira, Novembro 18, 2011

horas improdutivas

Perdi o sono. Questão existencial: qual o fim desta vida ? Eu coberta por uma máscara. Disfarcei tanto os sentimentos que  nem sei o que sinto. Não era deste jeito que eu queria viver. Não  assim tão seca. Só nos  livros, filmes ou canções  encontro vida.
Um menino, colega do curso de Japonês me contou a história de sua vida. Ele tem 15 anos. Mostrou um mangá que desenhou e  fiz alguns comentários, curiosa. Daí ele disparou a falar.
Lembrei que fui  estudante ótima até a adolescência e depois abandonei os estudos e nunca mais fui a mesma. Acho que entre a arte e marginalidade existe um grau de separação. Penso se a experiência desviante é útil como exemplo antipedagógico. Continuo "não aprendendo" nada. Algumas vezes tenho medo de ter entrado para o  "sistema de sedução". Sempre dizem os bons pedagogos: educere x seducere. Em Latim: conduzir para o mundo x  afastar-se dos votos (de lealdade).
Hoje não acho que há oposição entre os dois termos. Pode-se educar seduzindo, sem que sedução implique adulação ou submissão. Este seducere é compartilhar experiências únicas, como fazem os artistas. A resposta de porque todos os grandes artistas são inimitáveis é que cada um criou um estilo com as limitações que encontrou na  vida.
Mas meu tema é a secura da alma. Esta quase cética, que nada mais aspira. Não aspira ser  Buda, não aspira o equilíbrio mental e espiritual. Não aspira ser escritora, não aspira ser artista. Aspira só o pó que vem da rua,  entrando pela janela aberta do apartamento. Aspira a realidade concreta, não o mundo dos sonhos. 
A alma seca encobre a alma molhada. A alma antiga onde chovia tanto que foi preciso secar.   
Agora  continuo vivendo, não como alma penada. Mas como alguém  que fortaleceu o espírito para a luta da vida. É preciso chegar ao fim,  não sei bem pra quê.  Não sei o propósito. Só sei que depois que se aprende não é difícil, basta continuar.
Há algumas noites em que se perde o sono e se desperta. Pra quê? Pra quê ? Alguém reclama que a sexualidade insatisfeita é o pior dos infernos. Penso que aprender a ser sozinho é o primeiro passo para sair do inferno. A alma ficou seca, me tornei  insensível. Ou invisível, sem querer. Sem querer passei para o outro lado e ainda não me dei conta. Preciso acordar ? Preciso dormir ? Ou preciso não pensar mais  ?

1 comentários:

nydia bonetti disse...

Estou impressionada, Marilia. Também tive insônia essa noite. Acordei hoje feito um zumbi. E questinava exatamente sobre tudo isso que descreveu. Incrível. Fiz até alguns poemas sobre este sentimento:

Mãe, devolve-me as lágrimas
desfaz o desencanto
que me fez
de pedra
quero de volta
inteira — minha humanidade

bjs.