Segunda-feira, Novembro 14, 2011

POESIA - EXPERIÊNCIA

De setembro de 1953 a novembro de 1958, o poeta Mário Faustino (1930-1962) manteve uma página de poesia no extinto Jornal do Brasil. A página Poesia-experiência trazia desde artigos sobre poetas brasileiros a traduções de poesia da vanguarda européia e americana, como os dadaístas  e imagistas.
Faustino, natural de Teresina (PI), não tinha favas na língua. Escrevia o que pensava sobre poesia. Louvou Jorge de Lima quando ainda não era reconhecido pela crítica e não hesitou em criticar os já ícones Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles.
Em sua página, apresentou a vanguarda poética da Europa. Escreveu sobre o Dadaísmo de Hugo Ball, Tristan Tzara,  Hans Arp,  as colagens visuais e verbais de Kurt Schwitters, a poesia hermética de Emily Dickinson e o imagismo de Ezra Pound.  Apesar de sua erudição - falava e escrevia fluentemente Inglês, Espanhol, Francês e Italiano - sua linguagem era vibrante, sem traço de obscurantismo acadêmico. Fazia traduções à "queima-roupa", ou seja, sem revisão, nem obedecer à metrificação. Traduzia o sufiiciente para que o leitor brasileiro pudesse ter uma "experiência" ao entrar em contato com novas formas poéticas. O inacabamento marcou sua obra : publicou apenas um livro em  vida, "O homem e sua hora".  O crítico Benedito Nunes escreveu que Faustino foi um tipo raro de poeta, que apagou os rastros de seus mestres. Este é um de seus  poemas :

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem -
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna - como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

1 comentários:

rodrigo madeira disse...

já li alguns poemas do faustino e não gostei. mas este é muito interessante.
o cara manjava mt de poesia, era um baita crítico e polemista. bem possível que, se não tivesse morrido naquele acidente, tivesse se tornado um dos gigantes da poesia brasileira no século XX. fora o drummond e o gullar (e este renegou o primeiríssimo livro, escrito ainda adolescente), todos os grandes de nossa poesia publicaram obras medianas em suas estreias...

eu queria arrumar um livro que fizesse uma compilação de seus artigos no jb.

bj.