Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

SOLIDÃO

Li, agora, na Wikipedia, que um estudo da American Sociological Review mostrava, em 2005, que os americanos (EUA) tinham, em média, dois amigos próximos com quem trocavam confidências. Vinte anos antes eram três amigos. Aumenta a quantidade de quem não tem confidentes e quem tem apenas um amigo...eu tinha visto esta pesquisa, uma vez, num mural de uma clínica de psicologia onde fazia terapia. E a estatística já havia me assustado.
Eu fazia terapia porque me sentia só no mundo. A terapeuta era a "amiga confidente". Até hoje, ao saber de uma amiga que caiu em depressão e se isolou do mundo, não sabia o valor de uma amizade sincera.
Poder confiar em alguém. Entregar-se. Poder ser verdadeiro. Poder ouvir e ser ouvido. Ninguém para criticar, corrigir. A amiga disse que desligou o telefone para  sentir que "não teria mais obrigações".
Em verdade talvez ela se sentisse obrigada a ser  minha amiga. Afinal hoje todos tem a obrigação de ser  amigos,  nas redes sociais, nos grupos religiosos e nos negócios. Mas não é isto que acontece na família e no trabalho e nas relações afetivas.
Usamos a máscara do amigo nos grupos sociais. Fingimos que não sentimos raiva, tristeza, inveja, preguiça, egoismo, mesquinharia  para sermos aceitos. Mas não somos santos. Sentimos raiva, tristeza, inveja,  preguiça, mesquinharia e egoísmo. Só percebemos que sentimos tudo isto quando o nosso reflexo é representado na literatura ou no cinema. Nos meios de comunicação de massa, nas novelas de tevê, no jogo de futebol e noa rituais religiosos.
A identificação catártica leva à purgação.
Estranho que neste fim de ano eu também, no meu círculo de amigos mais  próximos, me permiti dizer: não quero mais ter obrigações. Não quero dar presentes de Natal. E lembro de há pouco tempo ter dito a meu pai que não iria viajar para cuidar de um cachorro dele enquanto ele estivesse fora.
Parecem atos de desamor, oferecidos aos que estão  próximos. A  verdade é que  não é preciso ter  obrigações sociais, familiares e afetivas. Não é preciso ser perfeito, mas é ideal  continuar sendo humano. Ou seja: ter limites. E é bom testar estes limites (liberdade de ser) com quem está  perto.
Me sinto  feliz dizendo não, algumas vezes. Dizer não sempre,  é como dizer sim sempre. Nos dois casos não há escolha. Dizer não, algumas vezes,  é bom. Para que  não chegue o dia de  ter que fugir de todas as obrigações.

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